Ensino em Casa no Brasil?

by on 19/05/2011

Os pais gerando um experiência escolar legítima no ensino em casa: "Ei, bunda mole, tô conseguindo ver sua calcinha!"

Ensino em casa é bastante famoso nos EUA (onde se usa o termo em inglês homeschooling) e relativamente conhecido também na Europa. Recentemente temos ouvido muita notícia sobre esse tema no Brasil. Será que faz sentido por aqui?

Ouvi essa pergunta e tive a oportunidade também de ver essa reportagem abaixo.

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Vou fazer ping pong com os lados da história:

Contato constante com os pais

Aprender acontece em qualquer situação, mas elas não são todas iguais – estar sob a tutela dos pais a todo o momento é matar a diversidade de tons e relações de aprendizagem que a criança pode ter. Isso não significa estar totalmente afastado dos pais, mas significa ter momentos de relação com outros. Pais ensinando em casa os seus próprios filhos a todo o momento é monotônico.

Além disso, pais sempre carregam uma expectativa em relação aos filhos, alguns tem até uma prejudicial ansiedade. Papel de pai inclui querer o bem os filhos e essa proximidade vem atrelada a expectativas em relação a eles. Essa expectativa é pressão que tanto pai quanto filho tem que aprender a superar.

Espaço público onde se aprende

Aceitamos sem questionar o monopólio escolar do aprendizado e muito pouco se fala de espaços públicos de aprendizado diferentes. É realmente triste que legalmente o único ambiente público de aprendizado no Brasil seja a escola.

Clube não é a escola

Clube, ballet, aula de piano e acampamento de verão não são o que é a escola para uma criança. A escola tem o potencial de ser um espaço relacional que todos estes outros lugares não tem. Estar em uma escola é ter a oportunidade de relacionar-se com outros de um jeito que nenhum destes outros espaços permite.

Isso não quer dizer que a escola seja um modelo de comunidade ou de um espaço relacional, mas que tem possibilidade de ser, enquanto que o clube e o acampamento de verão não tem.

Miscelânea

Pai e mãe podem, mas não precisam ser preparados para educar filhos em casa. Ser pai e mãe já é um peparar-se constante, é ser pai e mãe – essa é toda a “dinâmica familiar” necessária. No mais, o que eu acho engraçado dessa coisa toda – quando se está doente a gente procura um médico. Quer construir uma casa? Um arquiteto. Agora pedagogo e professor não serve para nada, né?

Adorei a ilustração do copo na torneira para encher. Deixa claro o que a pessoa entende por aprendizado e dá a sensação de que a doutrina de ensino em casa não é muito diferente da doutrina escolar do século XIX. Eu processava também.

Numa nota a parte, o gordinho detonou.

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4 Comentários

Calebe 6 Jul

Algumas impressões me vêem à mente depois de ler este post. Primeiro: o autor parece não ter filhos. Segundo: ele confunde, como a maioria de sua categoria, fato com opinião. Terceiro, parece desconhecer ou despresar, o princípio da pluralidade, característica de uma verdadeira democracia.

É estranho que profissionais prefiram que os filhos dos outros sejam obrigados a ficarem confinados em uma sala de aula, onde eles jamais colocariam os seus próprios. A grande maioria dos responsáveis pelo lixo que chamam de educação pública, manda seus filhos para boas escolas particulares.

Augusto Cuginotti 6 Jul

Olá Cléber,

Muito obrigado por seu comentário. Ele ficaria ainda mais rico se você pudesse me indicar em que momentos fatos e opiniões se confundiram ou onde o ‘princípio da pluralidade’ foi desprezado. Assim posso entender melhor suas impressões.

Também concordo que é um absurdo as crianças serem obrigadas a estar confinadas em uma sala de aula – concordamos.  Estou levantando o outro lado da história, onde as crianças são obrigadas a estarem confinadas em casa, e questionando schooling como um todo.

Não entendi o que isso tem a ver com a qualidade da escola pública – escola particular também não é confinado em sala de aula?

Acho ótimo que a possibilidade e as conversas sobre ensino em casa surgiram com mais força no Brasil – com mais gente conversando sobre ele, avançaremos para modelos mais plurais. Devo confessar, no entanto, que me decepcionei com sua fala e principalmente com sua metáfora educacional na entrevista.

gringosp 17 Nov

Olá Augusto,

Parabéns pelo ótimo resumo deste polemico.
O vídeo da Globo é especialmente interessante. Concordo que o gordinho
esclareceu excepcionalmente o assunto.

Acho estranho a lei estabelecer que o
convívio na escola seja de alguma maneira “especial” para a formação
do cidadão, desde que as escolas são tão diversas (publica, privada, pequena,
grande, urbana, rural, religiosa, secular, etc.).

Temos que questionar duas coisas:

1. O que é o convívio da escola que forma o
cidadão de acordo com a  lei? Quais são
as características deste convívio que existem em todas as diversas escolas e
que o distinguem de outros convívios do cidadão (em clubes, comunidades
religiosas, times de esportes, ONGs, etc.).

2. O que é a educação além do convívio da
escola? Parece que é um conjunto de conhecimento aprovado pelo governo (MEC)
que pode ser ensinado e aprendido de diversas maneiras, de acordo com o perfil
do aluno e as preferências dos responsáveis pelo aluno.

Ou seja, se os pais fornecerem “convívios” equivalentes ao convívio da escola e
o aluno mostrar que adquiriu a educação determinada pelo MEC, que interesse o
governo tem em questionar o local ou a maneira que este ensino foi realizado?  

Abraço.

David  (pai de 3 filhos, Mestre em Educação, ex-Diretor de escola privada)  

Augusto Cuginotti 18 Nov

Olá David,

Obrigado por seu comentário. Achei bem interessantes os questionamentos que levantou.

No que se refere aos conteúdos de conhecimento (seu tópico 2) – a importância deles está subordinada ao nosso espaço histórico-cultural e sempre vai evoluir conjuntamente com nossa sociedade. Na minha opinião, ele só é importante na medida em que estamos em convívio uns com os outros para aplicá-la em contexto.

O que nos leva ao ponto 1. Imagino que o intuito da lei é garantir um direito ao cidadão para que ele não fique subordinado a suas condições sócio-econômicas ou ao capricho de um grupo restrito de pessoas. A escola tem sido a forma de garantir este direito de convívio. Em outros países os governos já se convenceram (e criaram processos) para outras formas de escolarização (o homeschooling, por exemplo). Não vejo motivo para o que o governo Brasileiro não analise essa possibilidade e crie seus próprios processos para abrangê-la. Imagino que isso acontecerá no futuro próximos.

Como você bem pergunta – que característica convivente tem a escola que poderia existir em outros espaços?

Não sei a resposta, no entanto acho a pergunta bastante relevante para podermos criar outros espaços de aprendizagem que não a escola.

Olhei um pouco para isso explorando a diferença entre espaços funcionais e relacionais em http://augusto.blog.br/rede-comunidade

Grande abraço.

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