
Lá nos tempos da minha 5ª série (que os mais jovens chamam de 6º ano e os mais velhos já esqueceram de como chamavam) existia uma matéria chamada Ensino Religioso. Não sei bem da história da adoção e remoção da disciplina, mas sei que peguei um momento de transição estudando em um colégio marista: se na 4a série o livro era o Novo Testamento, na 5a eu estudava uma aula de moral misturada com auto-conhecimento – devo ter feito o MBTI. :)
Aqui na Inglaterra o Ensino Religioso ainda é compulsório nas escolas do estado. O debate é grande em vários lugares do mundo – você pode achar os links e debates procurando por ‘creacionismo’ e ‘design inteligente’ na wikipédia. A união européia, por exemplo, criou um relatório em 2007 chamado: “The dangers of creationism in education”.
Não sei se o critério de colocar ciências, por exemplo, como matéria obrigatória na escola seja baseado em algo muito além de opção sócio-cultural. Imagina-se que o entendimento de ciências dá ao estudante a possibilidade de se aculturar ao pensamento dominante de nossa civilização e poder interpretar o nosso entorno. Nesse contexto, não vejo o motivo para que ciências seja considerada matéria obrigatória e o Ensino Religioso não.
O fato de eu pensar que uma matéria escolar que se chama Educação Moral e Cívica (que eu tive, mas não lembro o que era) ou Religião tem uma abertura e um impacto diferente de ciências e matemática é natural – talvez porque realmente seja, talvez porque faço parte de uma sociedade que se diz estruturada nas ciências.
No meu ponto de vista como pessoa treinada nesta linguagem durante a escola, vejo muito mais abertura para que se doutrine em religião que em ciências. Já no meu ponto de vista como professor de ciências, não estou tão certo disso — acabo achando que ciências pode ser tão doutrinadora quanto.
É verdade que a boa ciência nas escolas inclui conversas sobre os limites do pensamento científico e etc, mas fica claro o quanto o conteúdo é resultado de um processo social: há 20 anos se ensinava em ciências sobre como funciona a destilação do petróleo, hoje se ensina sobre aquecimento global.
Fato que para as ciências os livros vão mudando, para a religião não. Ainda assim, Ensino Religioso deve ser, para muitos, parte da cultura que se aprende vivendo, dentro ou fora da escola. Apesar de contra a obrigatoriedade do Ensino Religioso na Inglaterra, acho bem legal que exista a opção para aqueles que querem explora-la. Infelizmente a opção fica só para as escolas privadas e mais infelizmente ainda talvez ela seja utilizada não para ensinar religião, mas para ensinar A instituição religiosa em colégios cristãos, judaicos, árabes, etc.
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3 Comentários
Acho importante o ensino religioso, desde que aborde o conhecimento sobre as diversas reiligiões, e não como uma técnica de doutrinamento.
Entender as religiões ajudam a entender a moral, a ética e até mesmo as leis de um determinado país.
Realmente, o “objeto” (ou “objetos”) de estudo do Ensino Religioso, na época em que temos contato com a disciplina, pode ser considerado tão abstrato quanto a ciência que aprendemos na escola na mesma época. Para formar uma opinião para o que talvez seja “intangível”, talvez seja necessário que tenhamos algum grau de auxílio ou, que seja, direcionamento (o mesmo talvez valha para outras coisas igualmente não palpáveis ou até difíceis de conceber, como o conceito do infinito matemático ou de onde surgiu o universo em que vivemos.
Acho que a função de propor (e, melhor ainda, atiçar a curiosidade para) caminhos de pensamentos alternativos são a verdadeira função do professor e devem ser oferecidas aos alunos quando possível, porque o professor tem o poder de ser imparcial.
Augusto,
Essa discussão é delicada pois existem religiões e mais religiões. Muitas delas não são dogmáticas e são passíveis de refutabilidade, assim como a ciência. A Doutrina espírita (que é uma tríade de ciência, filosofia e religião – e não apenas esta última como se costuma divulgar) admite na introdução de um de seus livros base (O Livro dos espíritos, uma das obras básicas e que fundamenta a doutrina) que se a qualquer momento a ciência demonstrar que algum conceito espírita está incorreto ou atrasado, deve-se acreditar na ciência e tomar aquele fundamento como princípio.
Enfim, só para ilustrar que as religiões, em alguns casos evoluem e se modificam também.
Grande abraço
Antonio